quarta-feira, 24 de março de 2010

Minha mãe conversa com o Jr, um peixe beta


Não sou sentimental. Quem me conhece sabe disso. Já fui mais pidona e dramática, mas as agruras que a gente coleciona ao longo da vida tratam de nos moldar, criando mecanismos de defesa. Poucas coisas, de fato, mexem comigo: amor, família e os animais. Cães, em especial.
No meu último sábado de folga, entre um papo e outro com minha mãe, assistia a trechos de K9, Um Policial Bom Pra Cachorro 2, reprisado pela milhonésima vez pela Rede Globo. Não era preciso prestar atenção no filme. Conhecia o enredo de trás pra frente. Partes um e dois. Mesmo assim, não consegui deixar de rir e chorar, de novo. E de novo com Beethoven, Hachiko: A Dog's Story, Amigos para Sempre, Marley & Eu...
Quando tinha 13 anos, conheci autoras como Marina Colasanti e Cecília Meireles. Não consigo lembrar o nome do livro da oitava série, que havia substituído as três edições anteriores de “Reflexão & Ação”, mas lembro perfeitamente que entre uma oração subordinada e outra, elas reinavam lá. Soberanas. E a professora Ruth (a quem serei eternamente grata!) nos fazia lê-las em voz alta. Lembro que entre uma figura de palavra ou de construção, a boa literatura começava a firmar seu espaço no meu aprendizado. Para explicar as funções da linguagem e a morfossintaxe, textos de João Cabral de Melo Neto, Luis Fernando Veríssimo, Fernando Pessoa by Álvares de Campos.
Um deles marcou meu imaginário infantil e quis postá-lo hoje aqui, em especial à Célia Fernanda, que esta semana perdeu um membro da família: Pretinha. Nela, a representação de ruseles, alexs, daisys, gislenes e todos aqueles que amam e respeitam os animais (sim, eu faço parte desta comunidade no Orkut).
Um Cão Apenas
Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito. Eis-me no patamar! E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.
Com um grande esforço, acaba de levantar.-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem… Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir.
Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica. Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
(Cecília Meireles)

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