domingo, 21 de maio de 2017

Travessia

Aprender é exercício diário. Requer olhos treinados, um pouco de sensibilidade e paciência - sobretudo sobre aquilo que não nos convém.
Tenho aprendido muito nos últimos meses. Principalmente  que preciso aprender mais. Hoje lembro da minha prepotência de outrora e penso "que bom que tenho me predisposto a mudar"! Me tornei menos limitada, porque é isso que ignorância faz: nos encarcera em nossas certezas e nosso ego.
Quando somos jovens e dotados de saúde queremos tanto, bem mais do precisamos: muito dinheiro, diversão, queremos ser notados. A maturidade traz consigo a necessidade de estabilidade. Buscamos o suficiente pra ter uma vida confortável e em paz. Tenho aprendido a ser tolerante com os meus desejos e a me desprender mais facilmente deles quando trazem angústia, pesar. Tenho aprendido a ser menos complacente. Tenho aprendido que viver é simples, porque sempre estive mergulhada em planos demais, vontades demais. Racionalizava em excesso, me preocupava sobremaneira que a vida fosse exatamente como eu queria que fosse. Como se eu estivesse só no mundo. Como se eu não dependesse do outro, que também é um mundo. Como se o universo não tivesse forças que desconheço. Como se vida fosse parar pelo meu lamento ou minhas necessidades. Viver não metafórico. A realidade é quase palpável. Aceitá-la é o primeiro passo para a abnegação ao que não nos cabe, sem sofrer tanto com isso. Algumas coisas simplesmente são e não há nada que façamos que possa mudá-las. O que temos que decidir é apenas se queremos ter perto o que não nos condiz.
Ao passo que me abandono dos excessos, autoconheço mais; percebo melhor. Esse exercício de enxergar a si mesmo sem disfarce também faz com que aceitemos melhor a nossa humanidade e a do outro. Travessia constante.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Lua crescente




Quatro versos, pediste 
Quatros reencontros,
te dei
Quatro paredes
De quatro, quarto 
Quarto crescente
Cresce 
Vira poesia, te dou
Quarto, casa
Quartos fartos 
Lua cheia

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Essa jornada é minha

        

Tenho escrito a você ao longo dos dias como quem escreve um diário de bordo, se aventurando na esperança de guardar memórias, enquanto deseja voltar pra casa. Não há que eu moro, mas a que mora em mim. Ou como quem envia cartas a um parente distante ou um amigo de infância, contando detalhes do dia, na tentativa de preservar a intimidade. Tenho escrito para dar vazão aquilo que não dava conta sozinha, que me acompanha por ora nessa trajetória que, sabemos, logo não deve durar. Nem pra mim nem pra ti. Mas há de se ter cumprido seu papel.
Hoje decidi arriscar os primeiros passos sozinha. Calcei sapatos e me pus a caminhar, porque é pra frente que se anda...sempre.  E eu precisava cair pra seguir adiante, sem ser amparada. Hoje a verdade, ao invés de me derrotar por vez, me trouxe à luz da convicção de que existem jornadas que são só nossas. Precisamos cruzar bosques, vales, oceanos. Enfrentar dragões, bichos do armário, homens do saco, moinhos de vento. Solidão. Porque não existe desilusão maior que o passo nem frustração maior que o desejo de ir em frente.
No meu pequeno trajeto observei animais, crianças, jovens, velhos. Cada um a seu tempo. À sua pressa. À sua sede de viver. Pude ver de perto aquilo que a gente não nota, porque perdemos muito tempo voltando os olhos apenas pra nós mesmos, para os nossos anseios. Mais do vi, enxerguei. E pude observar que a vida segue seu curso e que por isso devemos seguir adiante.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Sobre o que é diário

Nunca tive diário. Nem quando criança. Sempre achei uma ideia meio estúpida, sem sentido. Mas ontem, em meio a mais de 90 mil títulos de uma feira literária, achei um: pequeno, dourado, intrigante. Ele me propôs uma experiência nova. 365 perguntas; 1825 respostas. Uma para cada dia do ano, durante cinco movimentos de translação. Nem as seis horas extras anuais da Terra foram esquecidas. O diário tem o dia 29 de fevereiro que, pra mim, este ano, foi um divisor de águas. Pois bem, quando acabá-lo, estarei a quatro meses de completar 40 anos. Certamente terei respostas diferentes às mesmas perguntas. Como tenho tido ao longo desses 34 anos. Mas esses pedaços de folhas envelhecidas industrialmente e encadernadas me levarão a outra experiência. Melhor. A de dividi-la com alguém. Comecei a respondê-lo e o abandonarei em dois anos. Doarei, na verdade. E receberei daqui a quatro anos das mãos da pessoa que topou viver essa experiência comigo. Não sei como será. Se ele será mesmo preenchido ou negligenciado com o passar dos dias, dos anos. Mas o que sabemos sobre o amanhã? Talvez estejamos em lugares diferentes, como agora. Talvez em momentos diferentes de nossas vidas, como sempre. Talvez nem estejamos com vida. Talvez essa seja uma ideia tola...talvez! Sobre todas as perguntas que temos feito a nós no tempo em que nos conhecemos, respostas diferentes. Que foram caladas ou divididas. Esquecidas. Que amadureceram ou perderam o sentido. Porque a vida é assim, porque nós somos assim: mutantes.

domingo, 15 de maio de 2016

Rejeição





Escolher não é fácil. Toda decisão requer renúncia. E sair da zona de conforto é duro, mas as vezes é a melhor escolha.
Mas, e quando somos nós os abdicados? Definitivamente, não fomos preparados para rejeição! Fere nosso ego. Mexe com nosso brio. Mas até na decisão do outro temos escolhas a fazer: ou nos vitimizamos ou fazemos uma auto-análise de que podemos ter contribuído, sim, pra essa situação. Mas sem martírio. O que está feito está feito. Até no caos temos saída. Então, escolha se retirar com dignidade.

terça-feira, 1 de março de 2016

Nosso cardápio de emoções





Todos nós, dotados de inteligência e um pouco de autoconhecimento, sabemos no fundo até onde podemos ir, do que somos capazes.
Se as opções fossem-nos colocadas num cardápio de emoções, saberíamos escolher e descartar o insosso, onde falta açúcar ou pimenta. Sabemos exatamente o que nos sacia, o que nos dá prazer.
Aprendemos que comida saudável faz bem, mas inúmeras vezes optamos pelo fast food. Afinal, tem o paladar mais agradável e nos ludibria as sensações. Queremos comer com olhos e olfato, antes. Por fim, damos a primeira abocanhada. E em doses homeopáticas, vamos entupindo nossas artérias até chegarmos ao ponto do sufocamento. Com medo de morrer num infarto fulminante, mudamos radicalmente de hábitos. Queremos uma nova chance! Como se num estalar de dedos, nossa razão fosse lustrada por um limpador de para-brisas. Passamos a comer melhor, respirar melhor, ir a novos lugares, praticar exercícios, se dar a chance de reencontrar quem nos faz bem e esteve sempre disponível, conhecer novas pessoas, viver com mais qualidade. Perdemos peso, mudamos o corte de cabelo, damos um up no guarda roupa, às vezes mudamos até de endereço pra tentar caber no novo. Mas por que agora, se estava tudo ali antes da quase morte? Por que precisamos nos abandonar primeiro pra depois decidir tomar conta de nossas vidas? Por que temos dificuldade em dizer "não", ao outro e a nós mesmos? "Não" ao que temos a plena consciência que está nos chagando? Da possibilidade de rejeitar tudo aquilo que nos maltrata a saúde física e emocional?
Com o passar do tempo, esse cardápio de emoções fica até repetitivo. São sabores que nossos paladares reconhecem, no entanto temos preguiça de ir pra casa cozinhar, inventar uma nova receita, degustá-la, arrumar a cama e deitar tendo apenas o prazer de estar em nossa companhia. Temos apego a tudo e a todos. Somos acomodados, materialistas. Tememos o novo por pura preguiça e pavor do recomeço, mesmo depois de provar os mesmos gostos. Optamos por aceitá-los amistosamente. Nos são familiar. Correr o risco, pra quê? São tantos receios, que vamos nos esquecendo de nós mesmos, entregando e exigindo do outro um papel que só a nós cabe: o nosso compromisso com a felicidade.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

"Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente"

(Ferreira Gullar)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015


"Eu não sabia. Tu não sabias fazer girar a vida com seu montão de estrelas de oceano entrando-nos em ti! Bela, bela, mais que bela! Mas como era o nome dela?
Não era Helena, nem Vera, nem Nara, nem Gabriela, nem Tereza, nem Maria... seu nome, seu nome era... perdeu-se na carne fria, perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia. Perdeu-se na profusão das coisas acontecidas.
Mudou de cara e cabelos, mudou de olhos e risos, mudou de casa e de tempo. Mas está comigo. Está perdido comigo teu nome".
(Ferreira Gullar)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Pois que as sílabas levaram-nas pra longe
Mais ao sul
De onde as vogais, agora, imperam absolutas
Donas de si
Reverberando a solidão


Cais

Que esse amor que escorre te leve ao êxtase
Que esse amor que imunda te faça esperar
Que esse amor que transborda te leve pra longe
[Onde é o lugar do mar]
Que esse amor que regressa te faça ancorar