sábado, 20 de março de 2010

Caiu na rede...


Faz dois anos que conheci Érica pela Internet, faz dois anos e sei lá quantos meses que a minha vida tomou um novo sentido, recheada de frágeis e deliciosas surpresas.
Eu sempre entrava com o nick “eu.comvc”, roubado de um ex-amigo de trabalho só porque eu achava bonitinho e que, por um tempo, foi o nome parecido de uma sessão do programa apresentado pela Monique Evans na Rede TV!. Entrava em chats regionais embora eu nunca tivesse a pretensão de conhecer, pessoalmente, ninguém da Net. Sabe como é, as pessoas mentem tanto pelas teclas do computador. Inclusive eu.
Papo vai, papo vem, fiquei sabendo o nome da fulana e eu... bom, tinha dito que era “H”. Acabei me descrevendo do jeito que eu sou e o que realmente faço, só que, tudo, com o pseudônimo de João Carlos. E assim começou a história, eu, homem, ou melhor, Clarice, apaixonada por uma mulher. Não deveria ser surpresa se eu já tivesse tido outros amores lésbicos, mas não! Era o primeiro, doce e mentiroso amor feminino da minha vida.
Cinco meses se passaram, até que não dava mais para ocultar ou disfarçar esse turbilhão de emoções tão novos para quem já tinha na mala quatro namorados, 26 anos de idade, mas ainda muita fome de viver intensamente.
Praça da República, sexta-feira, dia 23 de setembro de 1999, entardecer... Foi lá mesmo, onde tudo acontece, que marcamos nosso primeiro encontro, naquele coreto de pedra. Lá onde a mulher de vestido azul-escuro viria por fim nas minhas expectativas. Mas, como eu contaria que era uma mulher, que menti meu verdadeiro nome porque tudo começou como uma grande brincadeira? Pra começar, nem fui com a calça jeans nem com a blusa bege que prometi. Apareci com uma calça preta e uma camiseta branca bem iguais aos modelitos de um bocado de gente – acho que não preciso dizer que foi propositadamente.
Deu 17h45, e eu continuei ali, olhando discretamente para aquela mulher tão linda em sua estatura mediana, branca, magra de cabelo castanho-claro, assim como os marcantes olhos. Deu 18h20. Ela já não conseguia mais esconder sua tensão, deveria estar pensando “quem seria tão imbecil a ponto de se atrasar tanto no primeiro encontro?”. Deu 18h42. Ela furiosa partiria dali se não tivesse escutado um “espere!”, trêmulo, quase nulo...
- Pois, não!
- Você é a Érica, não é mesmo?
- Isso mesmo, por quê?
- Muito prazer, eu sou o João Carlos – eu mesma não acreditava no que acabara de ter feito.
- Isso é uma brincadeira? Porque se é, não tem graça nenhuma!
- Como eu saberia quem é você?
- De repente, podes ser amiga daquele... daquele idiota!
- Como eu saberia que você é filha única e quase morreu na hora do parto? Ou que você tem um minúsculo beija-flor tatuado na região do cóccix?
Silêncio. Érica estava ficando rosada, vermelha, roxa... Quando, de repente, um grito de furor foi ecoado (acho que toda a Praça da República deve ter escutado).
- Eu mato o João, eu mato! Olhou para mim e já vindo na minha direção continuou:
- Saia da minha frente!
- O que eu preciso fazer para que você acredite que sou eu? Desculpe-me, eu quis contar, mas...
- Então é por isso que você não quis marcar esse maldito encontro antes, dar seu endereço ou um telefonema, Joã... Nem seu nome eu sei.
- Clarice. Eu me chamo Clarice, sua ex-qualquer-coisa virtual...
Adiantei o passo e já estava descendo as escadas do coreto quando ela me puxou pelo braço:
- Ainda que sejas mulher, não posso deixar partir alguém que já me conhece tanto e sem me dar boas explicações..
- Eu só menti o nome, o resto é verdade – balbuciei essas palavras já com o gosto de lágrima na boca.
- Vem comigo!
Érica conduziu-me até sua casa. Morava só num apartamento pequeno e bem decorado. Assim que chegamos, ela pediu que eu ficasse à vontade. Como, depois de tudo que aconteceu? Saiu. Voltou com dois copos: dose dupla de vodka que devo ter acabado em, no máximo, três goles. Passado alguns infinitos minutos de inevitável silêncio, ela resolveu falar:
- Clarice é mais bonito que João Carlos... Bem, na verdade, você não precisa me dizer porque mentiu, eu consigo imaginar. Essas brincadeiras da Net, sempre nos pregando peças. Afinal, podemos ser qualquer coisa, não é mesmo?
- Podemos?
- Eu, por exemplo, posso ser um projeto de “ex-homossexual” desiludida por causa do último relacionamento e decidida a não mais amar ninguém do mesmo sexo. Burrice minha! Achar que a gente pode fugir do destino. Vejam só o que arrumei!
- Preciso te contar mais uma coisa..
- Ah, mais surpresas! Vamos lá.
- Eu nunca tinha me apaixonado por uma mulher antes. Na verdade, nem sei como tudo isso foi acontecendo... Foi. Quando dei por mim, já não dava mais pra trocar fotos ou ligar a webcam, daí o pacto de nos conhecermos às escuras. Sempre acreditei que amor não escolhe sexo e você é tão... tão envolvente que, que...
- Querida. Érica interrompeu segurando minha mão.
- Você não precisa se explicar mais. A gente tem o livre arbítrio de conduzir a nossa vida como quiser mas. Como eu disse, quem de nós tem o poder de fugir do tal destino? O seu, por exemplo, já estava sendo traçado, meu doce João Carlos. Só espero que você esteja preparada.
- Preparada, para o quê?
Érica, passando a mão no meu rosto, me beijou.

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