quarta-feira, 31 de março de 2010

Experiências


Vai, me diz. Se você é mulher, tem ou teve a mãe por perto, pelo menos uma vez já deve ter ouvido: “você só saberá o que é ser mãe quando tiver um filho”. Conta pra mim. Todas nós já ouvimos isso. Ou vamos ouvir.
Tem determinadas coisas, e elas já vivenciaram, que só experimentando mesmo pra saber a sensação. Parece uma descida na montanha sem direito a freio ABS... a vida. Nada de plano terreno.
Dentre tantas experiências que ainda vamos ter (em qualquer fase da vida), poucas nos tiram tanto os pés do chão como não saber lidar com determinados sentimentos, que tentamos nomear de tudo quanto é jeito (dependendo de como lidamos com eles). Chega um momento em que a gente se joga do avião em queda livre e torce pra que o pára-quedas abra e a gente possa apreciar a vista.
O meu não tem aberto esses dias. A razão? Ainda desconheço. De real, só o vidro vazio de florais de Bach, a falta de grana pra terapia, o fato de que não encontrei nenhuma academia de yoga perto de casa e de que já estou quase sem unhas.
Dona Gislene estava certa. Ainda não sei o que é ser mãe. Talvez nunca seja.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Altar particular


"...Sei lá,
a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje
eu sinto que
O tempo da cura
tornou a tristeza normal
(...)
Sem mais,
a vida vai passando no vazio
Estou com tudo
a flutuar no rio
esperando a resposta
ao que chamo de amor".

(Maria Gadú)

sábado, 27 de março de 2010

Traço


Um papel riscado jamais voltará a ser uma folha em branco
Ele pode ser apagado e até reciclado
Ainda assim...
Carrega a experiência do traço.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Quase









Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão ...Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas nunca mais fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


(...)


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro


Nós, os pouco felizes

Nós, os seres humanos que vivemos em casas ou apartamentos, e não em acampamentos nem nos viadutos, nem nas favelas ou nos hospícios, nós que vivemos em residências de cujas janelas podemos ver a cidade em seus ofícios e vícios, ou as paisagens do campo e suas luzes, nós que sabemos cantar em prosa e verso, que podemos andar, sorrir, comer, temos a indústria e o comércio, e conta nos bancos, universitários, que nunca fomos à guerra ou despejámos mísseis, nós que podemos ver o mar, as ilhas, as aves, as montanhas, o céu belíssimo, as nuvens pretas, as estrelas, a amplidão do mundo, que temos mapas e a astronomia, médicos e anestesia, hospitais e poesia, que podemos viajar, olhar vitrines e comprar, nós, ai, nós, que sabemos ler e lemos livros, temos fogões em nossas casas, temos camas, temos sexo e desejo, temos o beijo, nós que ouvimos música no rádio ou em discos, que temos filhos com todos os dentes, escola, agasalho e nem vivemos em Cuba, nós que não somos curdos, nem etíopes nem angolanos, que temos florestas imensas, rios, terras, temos seca e temos chuva, temos quadros e gravuras, o luar do sertão e as araras, que choramos no cinema, que temos alma e lágrimas, mil caras, uma só, dedos sensíveis e crenças, amores secretos, jornalistas altruístas, padres guerrilheiros, músicos ardentes, escritores, sindicalistas, líderes sem-terra à vista, violeiros repentistas, loucuras, alvará de soltura, uma terra com palmeiras onde canta o sabiá, que temos carro ou sapato sem furo, temos o passado e o futuro, nós que assinamos revistas e jornais, temos casa de campo, mesmo que seja de um amigo onde há cavalos e pirilampos, nós que jantamos à luz de velas, tomamos vinho e meio embriagados lemos poemas para os passarinhos, ou para as belas mulheres, ou para o ser que amamos, e amamos vários, nós que somo amados, que vamos à praia ou não vamos mas esperamos a praia vir a nós, que vestimos roupas e usamos um antigo anel de família que ainda não foi roubado, e que talvez nunca seja, que tomamos cerveja, que temos a confissão e o perdão, que acordamos tarde e não andamos de trem, que temos salário, ou renda fixa, emprego, família, paixão, nós que temos corpo e estamos vivos, temos amigos, temos trabalho, fazemos exercícios, somos hedonistas, artistas, poucos, nós que fazemos cinema, que sentimos o perfume e temos sonhos, que adoramos ouvir estórias contadas por qualquer estranho, que dançamos alegres com as crianças, que gostamos de lareira e frio, sorvete e calor, o limpo e o macio, que sonhamos navegar tornando o mundo pequeno, que usamos biquínis e tangas, desfilamos nossos seios nus nas escolas de samba, que não somos da ralé nem da choldra, nem da rafaméia nem do lúmpem nem da miséria, que especulamos e ganhamos mas também perdemos, nós que temos raízes, directrizes, teatro, damas atrizes, jogadores, senadores, ai de nós, perdoai-nos, somos os pouco felizes.

(Ana Miranda)

Publicado originalmente na revista "Caros Amigos" em 1999

quarta-feira, 24 de março de 2010

Minha mãe conversa com o Jr, um peixe beta


Não sou sentimental. Quem me conhece sabe disso. Já fui mais pidona e dramática, mas as agruras que a gente coleciona ao longo da vida tratam de nos moldar, criando mecanismos de defesa. Poucas coisas, de fato, mexem comigo: amor, família e os animais. Cães, em especial.
No meu último sábado de folga, entre um papo e outro com minha mãe, assistia a trechos de K9, Um Policial Bom Pra Cachorro 2, reprisado pela milhonésima vez pela Rede Globo. Não era preciso prestar atenção no filme. Conhecia o enredo de trás pra frente. Partes um e dois. Mesmo assim, não consegui deixar de rir e chorar, de novo. E de novo com Beethoven, Hachiko: A Dog's Story, Amigos para Sempre, Marley & Eu...
Quando tinha 13 anos, conheci autoras como Marina Colasanti e Cecília Meireles. Não consigo lembrar o nome do livro da oitava série, que havia substituído as três edições anteriores de “Reflexão & Ação”, mas lembro perfeitamente que entre uma oração subordinada e outra, elas reinavam lá. Soberanas. E a professora Ruth (a quem serei eternamente grata!) nos fazia lê-las em voz alta. Lembro que entre uma figura de palavra ou de construção, a boa literatura começava a firmar seu espaço no meu aprendizado. Para explicar as funções da linguagem e a morfossintaxe, textos de João Cabral de Melo Neto, Luis Fernando Veríssimo, Fernando Pessoa by Álvares de Campos.
Um deles marcou meu imaginário infantil e quis postá-lo hoje aqui, em especial à Célia Fernanda, que esta semana perdeu um membro da família: Pretinha. Nela, a representação de ruseles, alexs, daisys, gislenes e todos aqueles que amam e respeitam os animais (sim, eu faço parte desta comunidade no Orkut).
Um Cão Apenas
Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito. Eis-me no patamar! E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.
Com um grande esforço, acaba de levantar.-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem… Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir.
Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica. Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
(Cecília Meireles)

terça-feira, 23 de março de 2010

Quando o amor não acaba

Foi durante o sempre doloroso processo de separação que Tati me fez ver com clareza por que me apaixonei por ela
A culpa – porque sempre existe culpa quando se trata dessas coisas do coração – foi de uma calça cor-de-rosa da Levi’s. Uma dessas 501, de cintura baixa, bem baixa. Quando ela entrou na redação usando aquela calça, fiquei maluca. Mas ali não havia muito o que fazer. Ela tinha namorada, era praticamente casada, e eu teria que me contentar com as sempre bem-vindas, mas muitas vezes insuficientes fantasias. Foi esse meu primeiro contato visual com a Tati, minha mulher e companheira nos últimos dez anos.
Depois do episódio da Levi’s rosa, como elas – calça e proprietária – não me saíam da cabeça, decidi investir numa improvável amizade e esperar por uma janela de oportunidade. E fui me aproximando, ficando mais íntima, mais amiga, confidente, conselheira, até que, finalmente, já completamente apaixonada, vi uma brecha. No começo, foi um relacionamento tumultuado, cheio de idas e vindas, de traições e culpas. Até que ela resolveu se mandar sozinha para uma temporada na Califórnia e, quatro meses e 11 mil milhas depois, lá estava eu atrás dela, na terra onde o sol sempre brilha. E foi então que minha alma percebeu que havia chegado em casa. Tati era tudo pra mim. Me dava colo, conforto espiritual, me aprumava, me acariciava, me namorava.
Ao lado dela, e incentivada por ela, cresci, amadureci e fui feliz. Tati cuidava da grana, da comida, das burocracias pentelhas do dia-a-dia e, claro, de mim. Eu ficava incumbida de lavar a louça, de fazer ela rir e de dançar devagarinho com ela na sala, à noite, bem tarde, enquanto o mundo dormia. Juntas, fazíamos supermercado, ginástica, líamos na cama, levávamos os sobrinhos ao cinema, escolhíamos os móveis da sala, os filmes do fim de semana, o sabor do sorvete, a próxima viagem. Conversávamos sobre a vida, planejávamos o futuro, tentávamos entender o passado e ríamos muito. Ríamos das coisas engraçadas, das coisas tristes, das coisas bobas, das coisas sérias – em minha memória, existe um arsenal imenso de risadas compartilhadas com minha companheira de cabelos castanhos, pele e olhos cor de mel.
Tati dormia abraçada comigo, me coçava as costas, lia meus textos antes de publicados, fazia correções, sugestões e colocava a cabeça em meu ombro quando falava, sempre com extrema competência e simplicidade, sobre as coisas mais profundas da vida. Levava vinte minutos escovando os dentes antes de deitar porque estava convencida de que assim evitaria futuros problemas na gengiva, passava creme no rosto dando tapinhas leves na testa e na bochecha num ritual delicioso e que todas as noites me fazia rir, dormia sempre de bruços e sempre muito silenciosamente, e, antes de engolir qualquer bebida, “mastigava” o líquido para “fazer com que ele descesse mais quentinho”.
Ela me fez ver o que eu jamais teria visto sem ela. Me fez chegar a lugares que eu talvez levasse uma vida para chegar, se chegasse. Me fez ser um tipo de pessoa que eu muito provavelmente nunca conseguiria ter sido. Tati me fez acreditar que eu podia, que eu devia, que eu precisava ouvir os anseios mais profundos da minha alma. Me fez optar pela estrada certa, mesmo não sendo a mais fácil ou nítida.
Há algumas semanas, Tati e eu decidimos seguir caminhos separados. Depois de passar dez anos respirando o mesmo ar que ela, estou reaprendendo a dar meus passos sem ser amparada, sem ser observada, sem minha maior admiradora e fã. E foi durante o sempre doloroso processo de separação, esse que divide CDs, livros, guarda-roupa (no caso de casais gays, claro) e a alma, que ela me fez ver com clareza exatamente por que me apaixonei perdidamente por ela há dez anos.
Tati é magnânima, delicada, inteligente, doce, sensível, carinhosa, linda e, acima de tudo, me ama com um tipo de desinteresse genuíno que normalmente esperamos receber apenas de nossos pais.
Em minha memória, sobraram fragmentos de imagens apaixonadas, engraçadas, divertidas, inesquecíveis: ela e eu decidindo o jantar daquela noite, fervendo a água para o macarrão, brindando nosso relacionamento com vinho tinto, rindo alto de algum episódio de Friends, fazendo panqueca no café-da-manhã, jogando raquetinha na praia, tênis no clube, comprando pão francês na padaria, o quindim do Pinheiros, correndo na pracinha, conversando na cama antes de dormir, brincando de fazer amor.
Tati me fez mulher, me fez feliz, me fez quem sou. Tati foi embora, mas deixou seu sorriso perfeito, branco, aberto, sincero, sempre apaixonado. E a Levi’s cor-de-rosa, evidentemente. Porque ela sabe que os ciclos da vida são feitos de pequenos e aparentemente insignificantes detalhes – e de pessoas. Pessoas, para os que têm sorte, como a Tati.


(Milly Lacombe)

domingo, 21 de março de 2010

Quando uma etapa chega ao fim


Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu....
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.

Fernando Pessoa

Tempo. Pra quê?



Hoje eu decidi virar a segunda página de Memórias de Minhas Putas Tristes. Sim, Gabriel García Márquez teve de esperar (desde o amigo invisível do natal passado) o término do livro de contos eróticos que me emprestaram, os apontamentos do novo nível do curso de francês e Victória Alada, que me fez aguardar pelos Correios com a ansiedade que não vivia desde a 5ª temporada de The L Word.
Às vezes, estar só faz bem para o abastecimento cultural da alma. E do ego. Nunca sobrou tanto tempo pra mim. Não que não queira estar acompanhada. Mas, em que outro domingo, desde os meus 25 anos, eu teria (por vontade própria) tantas horas pra digitar a metade final do meu romance escrito à mão? Eu sei, eu sei. Já vi, li, ouvi e vivi que não devemos nos abandonar em um duo, mas sou integrante da parcela de humanos-mula que ficam se testando pra saber até onde vão.
Quando se está em um relacionamento, cumprimos uma série de “burocracias românticas” tendo a consciência de que seremos cobrados mais lá na frente. O mais engraçado? Gostamos dessa prisão. Esperamos, lutamos por ela. Cantamos, escrevemos, encenamos a inspiração. Lucramos com ela. Não sabemos o que fazer quando as carceragens são abertas. Leva um tempo até rever o que (e quem) deixamos pra trás. Retomar o equilíbrio, o prumo, nos obriga a mais uma prisão.
A vida nos cobra escolhas o tempo todo. A de hoje: passar da quinta página do velho Gabriel, me dado pelo novo Gabriel, postar este texto e seguir adiante.

(...)

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado
para sempre
À margem de nós mesmos
(Fernando Pessoa)

sábado, 20 de março de 2010

Roteiro (des)adaptado


Dia desses vi na Internet um mini-vídeo com o roteiro bem parecido ao de um texto que escrevi aos 20 anos. Na época, eu tinha de escrever um conto para a disciplina “Projetos Experimentais I”, do 7º semestre da faculdade de jornalismo. Tinha de ser uma narrativa que inauguraria a sessão de contos de um site lésbico chamado Greta Garbo (quem diria!). Pois bem, voltando ao curta-metragem... Ele não era parecido ao meu roteiro, era impressionantemente igual. Cenários diferentes, linguagem televisiva, mas gêmeo do meu. Daí pensei: faz tempo que precisamos de grandes pensadores! Daqueles que um dia criaram a roda, o telefone, a energia elétrica e a máquina de lavar roupa. Até as ideias passaram a ser reaproveitadas, apenas o aprimoramento de flashs que um dia pulularam na mente de visionários. Penso que, só quando encontrarmos a cura para a AIDS, para o câncer ou descobrirmos a fórmula prática e eficaz para a paz no mundo, vamos nos surpreender novamente.
Trabalhei oito anos em uma instituição científica. Conheci de cor centenas de laboratórios, milhares de monografias, dissertações e teses que ambicionavam ser úteis de alguma forma à sociedade. Me vislumbrei nos primeiros anos da carreira que iniciava, até descobrir que na Academia (que deveria ser a mola propulsora da expansão do conhecimento), até lá, as ideias se limitam. As linhas de pesquisas se restringem às habilidades de seus doutores, PHDs que, na grande maioria, foram pra fora do Brasil fazer copydesk da pesquisa de um gringo, adaptando-a aos moldes tupiniquins. Orientadores que tosam as asas de jovens aprendizes. Pioneirismo virou luxo nos grandes centros científicos. Daí as pesquisas se confinarem em um círculo vicioso “chocolate faz bem, chocolate faz mal”, “uma taça de vinho tinto ao dia é bom, mas álcool faz mal à saúde”.
De todas as novidades apresentadas nos últimos tempos, a que mais me chamou a atenção foi a descoberta da vacina para o H1N1. Vírus como o da gripe comum, que só ganhou repercussão mundial por causa do pânico generalizado causado pela mídia, que passou a contabilizar os mortos, um a um. Como se o processo natural da vida não extinguisse milhares por doenças mais banais e os devolvessem à Terra. Todos os dias. Pois bem, a reposta quase que imediata à prevenção para a “gripe A” me surpreendeu porque o Governo bancou e comprou a vacina. Porque ela chegou rápido em nosso país e teve o calendário de imunização antecipado. Por isso a surpresa, a qual serei eternamente grata aos veículos de comunicação que mobilizaram a causa (sou do grupo de risco e no próximo dia 22 estarei no postinho de saúde tomando minha dose... hehe!). Mas daí a dúvida: se o tal vírus tivesse sofrido mutações genéticas significativas, será que nossos homens de jalecos brancos ainda não estariam se debatendo diante das velhas fórmulas?
No campo da comunicação e tecnologia, as invenções não param. De ser aprimoradas. Nada de novo. Nada de raiz, de gênesis, de ineditismo.
Bem, voltando ao meu texto adaptado às telas da Internet, pensei em exibi-lo em um post independente. Não que ele o mereça (eu tinha 20 anos). Mas, aí perdeu a graça no último final de semana. Ele, aqui, será parido bem ao estilo Benjamin Button, sem direito ao rejuvenescimento. Então, me restou colocá-lo tímido, no próximo post porque acabou meu limite de caracter. Não, antes, sem este prefácio.