sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fragmentos


Hoje esperava minha vez em uma central de atendimento do plano de saúde e não imaginei que demoraria tanto. Fui desprovida de boa leitura e já estava fadigada de ficar com as mãos no vácuo, enquanto via as pessoas impacientes suplicarem que o painel eletrônico os livrasse daquele tormento. Foi quando decidi folhear despretensiosamente uma dessas revistas empresariais segmentadas, que circulam nesses ambientes. Essas de bom acabamento e conteúdo duvidoso. Comecei, como de praxe, a leitura no estilo mangá e já a última página me reservava uma grata surpresa.
Raimundo Sodré é um escritor paraense que conheço bem menos do que ouvi falar. É dele parte do texto que posto agora, sem pudor de tomá-lo como meu. De certo, um dos mais simples e bonitos à minha terra, Belém do Pará.
“...Um beijo, um porre, um pensamento mau, um dinheirinho suado, uma desilusão, um assombro, um arrependimento, uma despedida, um reencontro, uma poesia, um palavrão, uma maldição, meu bem, meu mal, minha indiferença, o pôr-do-sol, o luar, a cachaça de Abaeté, uma nota no violão, a chuva fina, o amanhecer, os olhos farinhados de sono, as pimentas coloridas e o verde das folhas orvalhadas pela madrugada, o mistério das ervas , o imprevisível humor das ondas que às vezes vão buscar a gente lá longe, a brisa amiga e refrescante no final da tarde e o sal das minhas lágrimas que rolam agora sem embaraço nenhum...”
Sem caneta ou papel em mãos, este texto foi anotado no próprio celular. Perdoem-me se houver pequenos deslizes, mas digitava-o rápido, contando com a minha chamada. Diferente da impaciência de outrora, esperava que o tempo fosse bondoso e se arrastasse em sincronia com o meu deleite literário. Raimundo é tão gentil com as nossas lembranças, que nos faz viajar na miudeza, nos detalhes do cotidiano... Independente do lugar. Belém ou Paris. Abaetetuba ou Nova York. O cenário sempre cede às minúsculas memórias. Fragmentos da simplicidade de que é feita a vida.

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